no limiar





estou só
tão só que me esqueço e vacilo entre
o antes o depois numa recordação doce
de coisa alguma
numa solidão redonda
sinónimo de algumas ausências tecidas na
serenidade violenta dos adeuses ditos há anos
agora
sinto a agonia do cansaço vivido em cada madrugada
descalça com o frio dentro da cabeça e os pés a
palpitar face à insapiência que transpiro
em cada poro
inscrita neste corpo frágil que oscila na espontaneidade
constitutiva de todas as existências existentes para
além da filosofia humanista de Sartre e Hegel

na antecâmara
das correntes filosóficas
conducentes a nenhures
há outras correntes


as dos rios que me seduzem desde que
não corram para a evidência do mar como única
permanência do ser quedada nesta falácia de existir

na pessoalidade
na inter face do verosímil
na fragilidade do corpo

ergue.se o delírio nocturno

Chopin

onde as pessoas desdobradas quais formigas
aparecem ou desaparecem no enquadramento
da vidraça

a calçada escorregadia

a vida

enjeitam o trâmite linear do tempo
como limite precoce à inconsciência



-iwona sosnowska.

nota prévia




voltou.se
como se esse gesto iniciático
o reportasse à escrita
esquecido do facto de estar tão
cego que não se apercebia
das sombras que o
perturbavam

colocava.as entre as
mãos e os pés em forma
de asas qual
borboleta igual
mente cega

[ entre ambos a elipse ]

elíptica era
a queda tão certa quanto
o ventre
.............. ao qual se recolhia
.............. no ponto cruzado
de si
quando o corpo e as pernas
se alongavam para

entrar

no livro e
colar.se à página transformado em nota
prévia




-jeffrey michel harp.

pas.de.deux




sabia que o mar não o deixaria partir
era nele que se refugiava
quando as manhãs aqueciam o seu corpo em café

mergulhara o olhar e
fora num mar de si que encontrara os restos
de náufrago
no desconforto frio de quem olhou o infinito e
nada viu

sempre o mar
em maré brava

fora assim que se sentira
cansada
pé ante pé
avançando em slow.motion
ou desenhando a volta e
a contra.volta num volteio com a brisa
quisera.se bailarina
de carne e osso
mas o mar levara.lhe o "pas.de.deux "
numa viagem sem volta

...................................................ela e o mar

estivera em constante estado de alerta
sabendo que o chamariam a qualquer momento
fora ele que escolhera aquela vida
seguida à sua maneira
jamais teria netos a quem contar
as estórias prenhas de sereias
mergulhado na onda ou
sentindo a água percorrer.lhe
poro por poro
as estrias do corpo
em perfeito equilíbrio

..................................................ele e o mar

sentira o primeiro rasgo
a batida dos corpos
construindo uma ilha de amor
em estado letárgico
mas fora o mar que o levara
a percorrer um corpo em cabal sintonia
piano de início
vibratto um pouco mais abaixo

.................................................eles e o mar

fora nesse momento único de vibrante encontro
no ponto de chegada / partida
que ela mergulhara
nele
banhando.se às primeiras horas e
repetir.se.ia quando a alegoria regressasse
compulsiva
ao a manhe ser
aos portos onde as imagens
retidas em cada olho
seguiriam ao encontro do marulhar
das vozes

ele o enfabulador de sonhos
acabaria a última cena do filme
onde os homens na praia
encontrariam os restos de um beijo
ao ritmo lento da última vaga

ela dançaria
mas o mar
sempre o mar
interromperia
o pas.de.deux

confundindo.os
no braço e no ante braço que a areia escondia




-don paulson.

poemas//ser em circulação




lembrava.se de olhar a casa deitada
sobre o penhasco........... o abismo
que escrevia e
as palavras que vestiam a folha de papel

olhava.as
na sua fragilidade despida
........................ de espuma
com os espinhos secos das ondas

era frágil a maresia

acesos os pulmões
junto às janelas que se abriam
quando despido entre os lábios e o medo
olhava

......................... irado
......................... magoado
......................... o mar

havia aquele a mar
por baixo
por cima
o estender a palma da mão
para sobre ela escrever um nome

.........................o adormecer junto ao sono
.........................na distância e no cansaço
............................................................de si
sem estancar a torrente de palavras

perdia.se entre o marasmo e o relâmpago
da ausência e
preenchia os poemas /
/ser
em circulação

o sangue a correr para dentro


-julio carmona.

a rotina dos dias


a água e o regresso ao nada
à matéria prima
à sua negação
ao interior da bolsa
à placenta materna onde mergulhou

aquém mundo

o barco de papel levou.a para o outro lado
esquecida em além.tejo
terra de seareiros e mondadeiras onde
mui lenta
mente
seguiu o abraço solar e
se teve
no arquejar do vento

aberta

movimentou um braço
uma perna
volteou o corpo
arqueou a cabeça
estendeu um braço
rodopiou
parou
retomou o andamento
numa lufada de música
o antebraço subindo
pelo chão
pela colcha
pelo lençol
na pele dele
ao cair da tarde

em Liverpool
os beatles nasciam nas capas dos álbuns
deixados no chão

abriu a janela

ouviu as 8 horas no relógio da torre
devagar
muito devagar
lembrou.se que era segunda.feira e
que a esperava uma nova semana de trabalho




-sanford gifford.

esquerda




............................................. quando não tenho referências
............................................. o meu cérebro não funciona
............................................. torna.se um autómato
............................................. que não pensa
............................................. que não efabula
............................................. dorme

.
.
.


oscilo entre o ser e o não ser
o quinto elemento
o articular palavras
o legendar imagens
lenta
mente
tudo começa a ordenar.se e
o nada inicial transforma.se numa voz que
me orienta os gestos
me obriga a escrever
o que não é meu
transporto.me ao princípio do mundo
à cor
ao signo das coisas significantes
que observo e dou vida
tudo começa
a tomar forma e corpo
como as pessoas
que deixei
ontem
ao fim da tarde
construtores como eu do indescritível
mundo novo

sorrio
com ironia
aos umbigos
demasiado grandes e
corro riscos
sei para onde vou
com quem vou e
porque vou
sigo os que quero
quando quero e
para onde quero
sabendo que
os interesses são incompatíveis
com os ideais
da idade do acreditar
não me permito a arrogância
do ser em perfeição
imperfeita como sou
assumida
mente
igual e diferente
cansada de chavões
gosto da inteligência cultivada
de me sentar
em silêncio
a par dum ser inteligente
os demais cansam.me
desligo o cérebro
coloco o telefone em cima da mesa
deixo.os a falar sozinhos
sem ter nada na mão direita
muito menos na esquerda

............................ por onde gosto de circular




-k louise judd.

o piano




absoluta
mente imóvel
espera o passar de mãos ao longo de si
o deixar os dedos tocá.lo ao de leve
numa sala junto à sacada virada para um jardim

o piano ...

- a linguagem interrompida entre a criação e
o objecto criado a que alguns chamam inspiração


abraça e beija a sombra
todas as tardes e
na parede com ela faz amor
sentindo.se o inventor dos esboços
que há.de criar
na cumplicidade
entre o toque cavo e
as ondas soltas sobre a escrevaninha
de um velho surdo e louco

... ... solta.se no cordame ancorado
aos turbilhões nocturnos da divagação
amurada à sua cauda
longa e negra

... ... ... sente a batuta em si e
expele a primeira nota
é um nascituro preto concebido
em tempo de apartheid

os concertos deixam.no vulnerável
aos novos sons descobertos e
a descobrir
não foge
liberto em apoteose

bravo
bravo

os aplausos elevam.se
com eles
o salto que o poderá levar à loucura
pára
aquele lugar não é o seu
no meio da sala

evidência ? não!

o seu lugar é ao lado da sacada
virada para o jardim
onde ao abrir as manhãs
se remoça





-jkk.

um homem envelhecido despido do seu corpo


desespera imóvel sobre a areia
no excesso de um minuto
abraçado ao escuro e
à urgência do momento
em que se tem imune
a praia devolve.o esmagado e surdo
à photografia tirada ante o tempo
em que imóvel
se coseu no ruído que cresceu
com o silêncio de um espaço
definido
recusa a possibilidade de voltar atrás e
tem.se como um céu parado
na normalidade de si
no rumor indiferenciado
das águas agitadas ou
deitado sobre o fogo de sonhos
minuciosos
agarra.se a um rosto
àquele rosto certo do momento
em que se amora a imagem do outro
descrito no comentário atávico
onde as palavras não são conferidas
por pesadas demenos/demais
para aquele contexto
de memórias

ei.lo

um homem envelhecido
despido do seu corpo





-pablo picasso

jogo das escondidas

os meus sentidos estão em sentido
alerta
às mensagens transgredidas
quem sabe do vento sou eu
não sussurrem palavras
não escrevam poemas

na bruma
deixem sossegar o mar
deixem dançar o luar
na espuma
.
.
.

um poeta em desalinho escondeu as
palavras dentro do poema



-mc.

tributo a gabriele rikon

Meu coração é uma terra que cortou relações com o mar
na metade da água, embora árida e sedenta como o deserto.
Que amargo distanciamento, digo a mim mesma,
quão larga é a distância entre os peixes e eu.

-fatema rakei ( irão séc. XX )
( http://www.jehat.com.
enviado por amélia pais )